segunda-feira, janeiro 27, 2014

Pequeno-almoço

Acordas-me ao deslizares o teu braço para longe da minha pele. Abro os olhos estremunhada e vejo-te num espreguiçar lânguido: o teu corpo moreno recortado contra o lençol de cor viva deixado ao saboroso abandono de uma manhã de fim-de-semana. Sentia suaves dores por todo o corpo, sabia que ia encontrar negras em locais inacreditáveis dali a uns dias... e sabia que ia sorrir quando as descobrisse.

Levantas-te e segues sorrateiro até à cozinha. Apercebo-me de que estamos em tua casa. A forma sôfrega com que me foste conduzindo pelas escadas até uma das portas no patamar não em deixou perceber se estávamos a entrar na minha ou na tua casa, nem me lembro de ouvir a chave na porta. Entras de novo no quarto a morder sedento uma maçã. Perguntas-me o porquê da minha expressão incrédula, eu sorrio e não te digo no que pensava.

 Aproximas-te carinhoso, onde estaria o feroz amante da noite anterior? O teu toque sedoso e delirante na minha pele amanhecida provoca-me um arrepio. Sorris, deixaste a maçã de lado, não sem antes lhe cravares uma última dentada, deixando o sumo a escorrer pelo queixo. Delicioso e fresco. O melhor dos pequenos-almoços.

terça-feira, janeiro 14, 2014

És tu?

Quando cheguei não quis acreditar no que via.
Seria possível que viesse do outro lado do mundo e acabava a trabalhar ao teu lado?
Soube logo ali, no primeiro dia, que trabalhar contigo ia ser um tormento diário. Demasiadas histórias, demasiados cantos escuros onde os nossos corpos nus se podiam esconder.
Demoraste a encontrar-me. Demasiados gemidos, demasiada tesão contida em tantas noites de roupa interior a meio caminho, rasgada, agarrada a um tornozelo perdido e contorcionista.
Mas quando me encontraste, tiveste-me. Cruzamo-nos num corredor e eu soube. Segui atrás de ti, como se puxada pelo cheiro do fogo que fomos, noutras noites. 
Abandonamos o edifício e na primeira curva à esquerda empurraste-me contra a parede húmida.. Éramos duas.
Estavas duro já, quase zangado. Mordi-te o lábio, tu sabias e não te defendeste. Pouca resistência ofereci quando me torceste o braço e me colaste o rosto à parede. Há pouco a dizer dos teus beijos, uma balada pesada, descompensada e descompassada. Um misto de quase terno e poderoso, tão fodido da cabeça como de mim.
Mordeste-me o pescoço enquanto me percorrias o corpo com as mãos.  Eu sentia-te a latejar e arfava, desgrenhada e desgovernada. Agarrei-te o rabo por trás e puxei-te para mim. 
Abriste o fecho, eu subi o vestido.
Com uma mão cravada na cintura puxavas-me para e contra ti, a outra mão pousada no ombro enquanto te chupava um dedo ou te mordia.
Puxaste-me pelo cabelo e eu virei-me de frente e encarei-te.

- Estas igual, Miguel. 
Leva-me para casa.



sexta-feira, janeiro 06, 2012

mais uma noite.

Rebolou para o lado, cansada. Ainda mal acreditava no que se tinha passado... olhou para ele: tinha um meio-sorriso insolente pendurado nos lábios. Mentalmente refez os passos. 
Jantar descontraído, cinema, um beijo à porta de casa... outro nas escadas, carícias a dificultar a perícia de pôr a chave na fechadura, roupas no chão. Nem se dera ao trabalho de verificar se Miguel, o vizinho da frente, se teria apercebido de alguma coisa. Não era a primeira vez que Letícia acabava nos braços de João, já lhe tinha provado os beijos numa outra noite de Verão. Mas desta vez fora inesperado. 
Um só toque ateara o desejo que depressa tomara conta da situação. As mãos dele tinham-na explorado com calma, os lábios não haviam deixado um centímetro de pele por saborear. Ela estremecera quando a língua dele tocara no seu ponto mais sensível. 
As respirações ofegantes numa mistura de pele e carne tinham conduzido Letícia para cima de João. Montara-o sem pudor - quase se surpreendeu por isso - com a libido em fogo e o corpo em brasa. Ele respondera, o corpo a reagir ao mais leve movimento até chegar ao orgasmo. E agora respirava audível, esperava que a pulsação acalmasse para pensar em ir para casa.

terça-feira, novembro 16, 2010

A minha casa

- Em que pensas?

- Nada...

E um sorriso.

- Sorriste, em que pensas?

- Em ti, no teu corpo...

Ela sorri.

- Em como o meu corpo gosta tanto do teu?

Ele Sorri mais ainda, acena que sim e beija-a.

- O teu corpo é a minha casa.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Já não te via há meses.

E nem sei como é possível ser tua vizinha e não te encontrar durante tanto tempo, Miguel. Soube que estiveste de férias... e aparentemente o teu horário mudou. Se calhar até mudaste de emprego e eu não sei.

Mas ontem entraste no prédio quando estava à espera do elevador. E olhaste para mim como se fosse a primeira vez. Vinhas bronzeado com o cheiro das noites de verão e um sorriso delicioso nos lábios. Falámos. Convidaste-me para ver as mudanças que tinhas feito em casa... uma pobre desculpa para me teres na tua arena. Mas eu estava ébria com as lembranças do teu sabor, queria provar-te uma e outra vez, por muito que tentasse negá-lo.  Fui. Dei-te tempo para gastares o latim e fui gentil o suficiente para te deixar ter a iniciativa.

Rodeaste-me e com o peito encostado às minhas costas sussurraste "Tive saudades tuas". Arrepiei-me. E tu continuaste com a dança da sedução. Sorri e rendi-me. Tocaste-me como se estivesses a tocar a minha pele pela primeira vez. Deixei que me despisses, sabia como gostavas de o fazer, sentir esse poder. Demoraste-te em cada centímetro e eu entreguei-me. Fui tua, corpo e alma, objecto de prazer e de admiração, musa e deleite, só para ti. Um só toque da tua mão fazia-me estremecer e eu estava a adorar. Apertaste o meu corpo entre os dedos com fulgor, sentia o desejo na tua pele e o meu a aumentar. Agarrei-te o pescoço e beijei-te, gulosa e sôfrega. Sabias-me bem. Já me tinha esquecido do teu sabor, agridoce, viciante. Depois de te sentir o paladar, quis provar tudo o que o teu corpo parecia esconder. Não deixaste, seguraste-me o queixo e mordeste-me o lábio. Apertaste-me os pulsos e uniste-os ao fundo das minhas costas, ataste-os com alguma coisa que encontraste junto à janela, uma fita da cortina, vim a descobrir depois. E, sem explicações, afastaste-te e despiste-te para mim... sexy. Depois conduziste-nos aos tropeções até ao chuveiro e abriste a água, entre beijos e provocações. A água escaldava e eu queria libertar as minhas mãos para sentir a tua pele, mas estava delirante ao sentir as tuas explorar o meu corpo. Fechei os olhos e deixei-me levar, valeu a pena estar tanto tempo sem ti. Deixaste-me em brasa, à beira do precipício, uma e outra vez, mas só quando me desataste e me levaste para a cama é que me deixaste consumir-te com prazer.

Acordei com o teu corpo colado ao meu, o teu calor a envolver-me numa manhã estranhamente serena. Quis mais, roubei-te um beijo e o sono. Explorei a tua pele morena debaixo dos lençóis... e senti-te arrepiado, em alvoroço com a proximidade da minha respiração e do meu corpo. Também querias mais.

terça-feira, abril 20, 2010

Pedi-te que saísses com descrição do prédio, não queria que te vissem - especialmente o Miguel... Que explicação teria para que saísses de camisa em punho e peito ainda suado, de minha casa, que quase partilho, paredes meias, com as dele? Não demoraria dois segundos a perceber que aqueles gritos, os risos, os gemidos, eram os teus.
Olhaste-me como se te usasse mas sei que não estiveste comigo esta noite. Outras curvas, outros olhos toldavam-te a mente [e tu achas que eu não te conheço?] mas às vezes, sexo era só sexo e quis-te mostrar que hoje, fizeste com que assim fosse.
Estava cansada de tanta noite de suor desmedido sem um beijo doce pela manhã, mas não era isso que queria para mim. Ia parar. Ia parar com as noites de perdição contigo e com ele, o stress absoluto para que nenhum soubesse de como o outro me fazia gemer.
Pensei em escolher... mas como? Tu com o teu corpo de deus grego [que maior cliché, mas a verdade é que ninguém saiu melhor esculpido], ele com as palavras e um olhar que me deitava por terra e me deixava a pedir [implorar, lembras-te Miguel? Não seria a primeira vez...] por mais...
Por isso ia parar. Para já, só queria parar...

sexta-feira, abril 16, 2010

Regresso a casa

Enquanto caminhava em direcção a casa, pensava no banho quente que iria preparar. De repente, começou a chover torrencialmente e nem a corrida afogueada e extenuante a salvou de abrir a porta já com o cabelo a pingar. Do outro lado, alguém esperava impaciente o elevador.
Os seus olhos cruzaram-se. Não se viam desde daquela tarde em que Letícia o tinha deixado sentado numa cama abandonada. Ricardo esforçou-se por parecer descontraído, ia visitar o amigo de longa data que tinha na casa em frente à de Letícia. 
- Olá - disse-lhe num tom nervoso indisfarçável.
- Ah olá, Ricardo! - foi a resposta serena e aparentemente inabalável da encharcada Letícia.
Entraram os dois no elevador, o espelho embaciou-se: ela tinha chegado com a chuva na roupa e o calor na pele. Ele tentou manter a respiração compassada e calma. Sentia as mãos dormentes e uma vontade absurda de lhe agarrar na cintura e lhe largar beijos no pescoço.
Letícia aproximou-se da porta, Ricardo aproximou-se dela sem lhe tocar, sussurrou-lhe ao ouvido. Ela estremeceu, não pelas palavras que ouviu mas pelo pulsar dos lábios tão próximos do seu pescoço.
Virou-se, repentinamente, e surpreendeu-o com um beijo que o encostou a um dos cantos do elevador. As portas abrira-se quase no mesmo minuto e ela saiu sem olhar para trás. Foi rápida a abrir a porta de casa e entrou. Respirou fundo. "Ainda bem que não passou disto" pensou. Pouco depois ouviu a campainha da porta da frente e os cumprimentos dos dois amigos. Perguntou-se se o Miguel saberia de alguma coisa sobre ela e o Ricardo, afinal de contas eles eram tão amigos...




quinta-feira, abril 08, 2010

Tarde sagrada com o pecado na mente

Levantei-me e desta vez consegui sair do teu ninho. Roubei-te uma t-shirt antiga, e desci, descalça, até minha casa. Vesti uns calções justos [aqueles que tu adoras sabes? com os quais me fotografas sempre...] e fui correr. Precisava de suar o que tinha de teu em mim. Precisava de sentir algo que não as ondas que me provocavas e me subiam a coluna, arrepiando-me.
Suei uma vida, duas noites de sexo, muitas fantasias. Sabes como gosto de correr de cabelo ao vento e peito firme, seguro. Sabes como me sinto depois de correr, suar as noites de sexo que temos em segredo. Voltei a casa e pus a água a correr. Ouvia os vizinhos do direito a fazer sexo. Ela batia com a cabeça na parede e gemia e quis ter-te comigo, comer-te outra vez. Delicioso. Poderoso. Meu. Arrepiei-me e enfiei-me no duche. As altas temperaturas, o vapor convidavam-me a ficar e conhecer o meu corpo mas adiei o toque e pus um fim ao auto-conhecimento. Hoje encontravamo-nos na igreja. Podiamos fazer dezenas de piadas com a nossa presença ali, num sítio sagrado onde só o pecado nos vinha à mente.
Entrei na Igreja e tu já lá estavas, camisa aberta a três quartos, a pele morena, arrepiada quando olhaste para mim. Preto. Eu vinha de preto. Maquilhagem esforçada, que o suor esborrataria mais tarde. A cerimónia decorreu, cheia de palavras sacras mas nós estavamos longe. Tu, sentado no banco atrás de mim, nós atrás de todos os outros. Sussurravas-me na nuca e eu estava mais acesa do que nunca... cruzei as pernas para que parassem de tremer. Esperámos que saíssem, alegámos que precisavamos de um momento. Para nos dedicarmos a algo...divino: nós. Nús.
Seguiste-me até ao confessionário e se pudesses pregavas-me as mãos por cima da cabeça. Com força, mantiveste-me assim, presa e beijaste-me o corpo.Ficaste de joelhos e esperaste que me juntasse a ti. Sentei-te no banco e tomei o meu lugar no teu sexo. O velho banco de madeira rangia e o som só me fazia acelerar o movimento, desejar-te mais dentro de mim.Arrastaste-me até aos degraus que nos levavam ao altar e os reflexos de cor dos vitrais no meu peito acenderam o animal em ti. Viraste-me de costas com brusquidão e deixaste-me de joelhos apoiados no chão e a minha traseira suada junto à tua frente definida, erguida. Enrolei os meu braços no teu pescoço, seguraste-me o peito com uma mão, o cabelo com a outra. Mais uma vez doía, como doia sempre que estava contigo. Mas não parávamos, nunca, não tão perto da melhor parte. Aceleraste o ritmo e tive de me morder para não gritar, uma, outra e outra vez. Cravaste as unhas na minha cintura, deixando-me saber que te aproximavas do fim. Fui lá contigo e gritei. Um grito suado, ousado, abafado... pelo grito do sino da Torre da Igreja de vidros embaciados.

domingo, março 21, 2010

The Morning After

Acordas-me ao libertares o teu braço de mim. Abro os olhos estremunhada e vejo-te num espreguiçar lânguido e delicioso: o teu corpo moreno recortado contra o lençol de cor viva, o meu, deixado ao saboroso abandono de uma manhã de fim-de-semana.

Sentia suaves dores por todo o corpo, sabia que ia encontrar nódoas negras em locais inacreditáveis dali a uns dias... e sabia que ia sorrir quando as descobrisse. Levantas-te e segues sorrateiro até à cozinha. Apercebo-me de que estamos em tua casa. A forma sôfrega com que me foste conduzindo pelas escadas até uma das portas no patamar não em deixou perceber se estávamos a entrar na minha ou na tua casa, nem me lembro de ouvir a chave na porta. Entras de novo no quarto a morder sedento uma maçã. Perguntas-me porque é que estava com uma expressão incrédula, eu sorrio e não te digo no que pensava. Aproximas-te carinhoso, onde estaria o feroz amante da noite anterior? O teu toque sedoso e delirante na minha pele amanhecida provocou-me um arrepio. Sorris, pousas a maçã na mesinha de cabeceira, não sem antes lhe cravares uma última dentada, deixando o sumo a escorrer pelo queixo. Delicioso e fresco.

Gentilmente, passeio a minha língua pelo teu pescoço, mordisco-te o ombro e aperto-te contra mim. Sinto a tua respiração ofegante na minha pele e o teus dedos firmes por todo o meu corpo. Mordes o lábio e olhas-me nos olhos de forma lasciva. Tocas-me, acaricias-me, provocas, sabes como reajo às tuas investidas nos meus mamilos e esforças-te ainda mais. Desces lentamente pelo meu corpo e consigo sentir o quente dos teus lábios aproximar-se cada vez mais das minhas virilhas, estremeço. Sinto a tua língua, os teus dentes, suaves, provocantes, deliciosos.

Não desistes até me sentires vibrante em doces ondas de prazer, não desistes até me levares onde queres, não desistes até me deixares sem respiração por momentos. Sorris e deitas-te ao meu lado, adoras ver-me corada e ofegante depois de um orgasmo assim. Devolvo-te o olhar e tu percebes que só tens de esperar que eu recupere as forças...

quarta-feira, março 17, 2010

Nunca fiz isto antes

Passaram-se meses desde a nossa última queca.
Deixei-me de rodeios - em palavras e memórias - e hoje preciso que me saltes em cima.
"Fazes-me falta, merda!". Odeio assumir que preciso da tua mão entre as minhas pernas mas já não me sinto como quando o fazíamos...Aproveito o turpor das memórias e deito-me na cama do meu quarto escuro e adormecido, os estores escorridos e a música que nos faz querer suar no tapete. Tu não estás mas não estou sozinha. A tua memória persegue-me e é como se estivesses no quarto...
Seguras-me o pulso atrás das costas e torce-lo. Doi-me, tu sabes, mas eu gosto (tu também sabes). E dobras e quase que o partes mas concentro-me no caminho que a tua outra mão percorre no meu corpo. Lombar, umbigo, desce a virilha e pára. Estou quente, quase febril e as tuas mãos são cubos de gelo, como tu, indiferente.
Encostas-me à parede e seguras-me, agora, os pulsos por cima da cabeça. Odeio-te mas quero-te demais e a tua invencibilidade complementa o three-some que desempenhamos hoje.
Começas a tua dança de homem que sabe o que quer e agarras-me o peito, és um polvo com mil mãos que invadem o meu espaço e perco-me do meu elemento. Estou nua, em ruína, presa entre ti e a parede e momento nenhum soube melhor.
Há tanto que não te disse, mas encaro-te e mordo-te o lábio. Sangras um pouco e riste-te. "Puta", dizes. "Estás a portar-te mal...".
Atiras-me para a cama e fazes-me tua. Eu beijo-te o corpo, agora mais quente e menos indiferente e agora mando eu. Estás sentado à beira da cama e enquanto te beijo amarro-te. Não dás conta, mas melhor assim, sei que vamos ter uma longa noite...O que fizermos hoje, nunca fizemos antes.

terça-feira, julho 14, 2009

Sentou-se na cama, ainda quente do torpor dos corpos. O quarto parecia-lhe enorme e tão vazio... Estava sozinho. O coração batia-lhe desenfreado no peito, o corpo estava dormente, e nada à sua volta fazia sentido. Um grito agudo trespassou os minutos, no quarto em vácuo. O telefone. A medo pegou-lhe e ouviu alguém alegre e cansado que lhe contava a jornada até chegar a Londres. Ana tinha ido em trabalho, um cliente importante... Ana, a mulher com quem tinha casado há uns anos atrás. Ana, a mulher que tinha estado afastada da sua mente durante as últimas horas, durante as últimas semanas.
Letícia tinha surgido de novo, a sua paixão de outros tempos. E agora ela tinha saído, altiva, com a certeza de que deixava para trás um homem perturbado.

Enquanto sorria, consciente dos estragos que provocava, Letícia dava as indicações ao taxista para a deixar em casa.

segunda-feira, julho 13, 2009

Arrependimento.

Ela sabia melhor, sempre soubera. Não baixava a guarda nunca, mas as recordações de outros tempos fizeram-na ceder. As recordações eram de tempos idos em que também sofreu mas disso nunca ninguém se lembra... E recordava os andares de mão dada, o toque dele, as mãos dele, o cheiro dele. Inconfundível.
Por isso, quando depois da noite em que secretamente foram um do outro, ele não deu notícias, não respondeu à sua mensagem e não voltou a ligar, Letícia pegou, pedra por pedra, e reconstruiu o muro.
Saiu à noite, com as amigas. Suou no ginásio. Comeu saladas e gelados. Bebeu cerveja, apanhou sol.
Por isso, quando depois da noite em que ele lhe segredou amores que não tinha ao ouvido, ele a voltou a ver, ela tinha pele e cabelo dourado do sol, olhos brilhantes e o que ele via era como se a visse pela primeira vez.
Por isso, quando depois de todas as noites passadas, pedra por pedra, a reconstruir o muro, Letícia seduziu-o. Mas não se deu.
Por isso, quando depois de saber que ele tinha alguém na sua vida de quem se despedia todas as noites com sorrisos, Letizia avançou e agarrou-lhe o cinto. Desapertou-o. Abriu um botão, outro e mais outro. Deixou que as calças lhe caíssem e puxou-o para si. Sentiu-o duro, forte, mas doce por dentro, como se o veneno que ela sentia hoje por ele lhe escorresse pela garganta e o fizesse amarrar àquela sereia.
Letícia sentia-se perigosa. A chama que provocou demorou a queimar, mas Letícia não esmoreceu, nem derrubou. Continuou as sua dança perigosa, com as mãos dele no seu peito, e as dela por cima, como quem grita controlo. Satisfez a sua raiva naquela, hoje, abjecta pessoa que tanto queria mas a quem nada podia dizer. Usou-o por desfeita, por rancor. Hoje ela dormia sozinha, mas ele dormia pior.
Por isso, depois de satisfeita fê-lo vir. Desceu da cama e vestiu o vestido que se colava agora à pele tranpirada. Ele, extasiado mal se apercebeu que Letícia estava saída e foi à casa de banho passar um refresco pelo rosto, recuperar a pulsação, respirar de novo, sem sofreguidão.
E por isso, quando regressou estava sozinho num quarto cheio de um silêncio que o esmagou.

sexta-feira, maio 29, 2009

Aquele encontro inesperado...há muito esperado

Letícia caminhava distraída, a mente divagava entre os contornos do fim de semana e as tarefas planeadas para aquele dia. E de repente, num olhar desatento, encontra uma cara familiar... Ricardo.
Ele também a viu. Assim, sem pré-aviso e sem filtro, sentiu os pulmões apertados e não conseguiu evitar um sorriso. As palavras enrolaram-se na garganta, num angustiante atropelo de hesitações, e as mãos ficaram frias e a suar, num conjunto de sensações que provavam a indiferença impossível em relação a Letícia.
Também ela percebeu que aquela paixão de infância não tinha esmorecido. O coração acelerado e a pele em em alvoroço eram apenas alguns sinais da atracção que ainda sentia por ele. Cruzaram-se e falaram. Num convite para um café, ficaram lembranças revisitadas e sentimentos recuperados por instantes.
.....................................

E num impulso Ricardo arrastou-a para sua casa, vazia, livremente auspiciosa, e envolveu-a em si. Queria matar saudades, aproveitar tudo o que não tinham aproveitado em tempos mais inocentes... e, apesar da resistência, Letícia acabou por ceder ao homem que sempre desejou em segredo. Deixou-se levar pelo momento, quase com vontade de o provocar, recuperando a inocência há muito perdida. Mas já estava cansada de esperar, queria-o e queria-o já, "de um querer bruto e fero" como um dia escreveu Almeida Garrett.
Ricardo não se demorou a arrancar-lhe a roupa já de verão, ela beijou-lhe o pescoço com languidez. A língua lasciva de Letícia percorreu a pele do corpo másculo e bem delineado que tinha à sua frente, provocando-lhe arrepios. Ele segurou-a com firmeza pela cintura, apertou-a contra si, sentiu-lhe o bater do coração. Sentiu-lhe o calor e, a cada investida, Ricardo excitava-se mais ao ver as faces de Letícia coradas de prazer. Imaginava-a na pele da menina ingénua e inocente que não tinha tido oportunidade de provar, ao mesmo tempo que se agarrava ao corpo de mulher. Tão sensual e tão quente.
Os sentidos entrelaçados, sensações inesperadas e um desejo quase tangível que os acompanhou até a tarde acabar e a vida reclamar o regresso.

Noites quentes de saltar de parapeitos

Chegou por detrás dela e cheirou-lhe o cabelo. Puxou-os um pouco, gostava de a controlar. Usava a vantagem do tamanho que tinha, em tudo. A mão dele, enorme, rodeava-lhe a cintura e vincou os dedos na silhueta feminina, que lhe enebriava o espírito. Ela, encostada à janela bebia de um cálice de base desgastada, das lavagens, doutras noites, outros amores. Aproximou-se mais. Ela sentia-o cada vez mais, cada vez maior. Ele sabia o tempo que demorar para crescer nela o desejo de o ter e isso agradava-lhe.
Com os joelhos, afastou-lhe as pernas e deixou-se ficar. Ela tremeu. Os seus lábios percorriam-lhe o pescoço e a cabeça dela cedia, descontraindo e caindo apoiada no seu ombro, onde já chorara, noutras noites, noutras viagens. As mãos dela pararam no rabo dele, à medida que as mãos grandes lhe percorriam o corpo, começando pelo peito desenhado na perfeição, cobiçado por todos, tocado por apenas um. Naquela noite.
Sentia-se vulgar por vezes, quando, com fulgor, ele a virava contra si, indefesa. Mas o prazer da caçada tirava-lhe o poder com o qual dominava todas as facções da sua vida. Hoje queria ser ela a presa.

Abri-te as pernas e gemeste de surpresa. Querias ser minha, senti-o nos teus lábios trémulos quando me pedias mais sem o fazer. Fiz do teu umbigo o ponto de partida e subi, conhecendo cada centímetro da tua pele morena, quente, arrepiada. Agarrei-te o pescoço e empurrei-o para trás. Gostas quando tomo a dianteira. Gostas que seja bruto e te controle, que te faça subir. E descer. E subir. Para que desças fulgorosa outra vez e comece a tua dança no meu corpo, também trémulo de cansaço, desejo, prazer.

Respirava mal mas não era a tua mão no meu pescoço. Eras tu a conhecer-me, a fazeres-te convidado em mim. E eu só queria dançar como um, sentir o harfar do desejo e dançar ao som do desespero que era estares dentro de mim. E tu dançavas bem, semi-nú meio sem jeito com calças pelos tornozelos e eu de saia arregaçada contra um parapeito baixo demais. Gosto do risco. Faz-me querer saltar. Saí de ti e afastei-te de mim. As calças dificultaram-te a passada e caíste na cama, em câmara lenta, sensual. Liguei a câmara. E a dança recomeçou. Uma. Outra. e outra vez.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

46 - Sunrise

Conversaram durante horas e, apesar de sentirem a temperatura descer, não tinham vontade de terminar a noite.
- Pequeno almoço em minha casa?
Desafiou Letícia, com um sorriso algo provocador. À defesa, João respondeu com outra pergunta:
- O que é que tens para me oferecer?
- Uma enorme variedade de iguarias que prometem aguçar o teu paladar e deixar-te plenamente satisfeito, ainda antes do amanhecer!
Riram e encaminharam-se para o carro do João. Quando chegaram a casa da Letícia ainda era noite, ela fez café e torradas.

A conversa parecia ter chegado a um fim. O silêncio agora imperava, entre o café quente e deliciosas torradas, as palavras desfizeram-se em sorrisos e olhares envergonhados. Ele inclinou-se, tentando alcançar um guardanapo, Letícia não se desviou e João conseguiu tocar os seus lábios pela primeira vez nessa noite.
O que se seguiu foi pura magia da atracção, carícias, beijos, toques inocentes que despertaram as mais violentas reacções. Enlearam-se nos lençóis beges da Letícia enquanto o sol nascia, o calor inundou o quarto e conduziu-os a um sono reparador.
Quando acordaram, Letícia estava envolvida nos braços de João e sentiu-o beijar-lhe o cabelo antes de ouvir um "Bom Dia" sereno. Por momentos temeu que ele se fosse embora rapidamente, mas as intenções de João eram outras. Começava a gostar daquela mulher sorridente e arisca...

segunda-feira, outubro 13, 2008

45 - Reencontro

Era o Ricardo. Ali, no crespúsculo de uma noite abandonada aos amigos. Letícia esforçou-se por manter o controlo e esquecer aquele momento. Já não o via há muito tempo, era alguém que talvez não quisesse voltar a ver. Sacudiu a cabeça e afastou-o do pensamento.

Seguiram para o bar e à terceira bebida, Letícia viu faíscarem no balcão uns olhos verdes profundos. Patrícia também se apercebeu e levantou-se para cumprimentar o ex-colega de faculdade. João estava descontraidamente a conversar com um outro rapaz, colega de trabalho, com o qual a Patrícia pareceu momentaneamente encantada. João deixou-os a sós e aproximou-se de Letícia, sorriram e embrenharam-se numa conversa divertida sobre encontros passados e a noite presente. Inconscientemente sabiam que na manhã seguinte iriam acordar nos braços um do outro.

O colega do João tinha vindo com ele e ao sairem do bar, Letícia e Patrícia aproveitaram a boleia. Mais tarde e já a sós, João e Letícia foram dar um passeio pela praia...

segunda-feira, junho 30, 2008

Luísa ajuda - 44

- 'Tá Marta? Olá! Olha A Patrícia ligou-me é para irmos jantar lá a casa hoje! Liguei ao Gabriel e ele pode levar-nos...Sim, ele leva a nova namorada...ahahaha..não sejas má! Ele leva-a mas tem espaço para nós, passa por aí às oito?...ok já lhe mando uma mensagem. Beijo!

E agora o que vestir? Provavelmente não haveria nada de anormal naquela noite mas ela queria estar bela, sensual até. Optou por um vestido simples, verde escuro de corte ousado mas longe de ser ordinário.

O jantar correu sem sobressaltos, a Luísa foi apresentada de forma pacata e só no avançado da noite, é que começou a conhecer a natureza alegre e despreocupada das amigas do seu amado.

Estavam a dirigir-se para um bar que o Gabriel queria dar a conhecer a todos, quando Letícia estacou. No seu olhar viam-se veios de gelo, nas suas mãos sentia-se o torpor de quem decide desistir. A Luísa foi a única a notar o súbito atraso da Letícia e, com serenidade e discrição, fez por perceber o que se tinha passado. Rapidamente encontrou o objecto de preocupação para Letícia. Era alto, moreno, aparentemente inofensivo. Luísa considerou até que não se destacava na multidão, pelo que percebeu intuitivamente que havia um historial com a sua nova amiga que ela não conhecia.

Letícia engoliu em seco, a garganta apertada, obrigou-se a recompor-se e trocou um olhar de agradecimento com a Luísa.

domingo, maio 25, 2008

Regesso do pijaminha - 43

Passou pela dona Isabel ao entrar no prédio, cumprimentou-a e seguiu.Subiu as escadas num passo pesado e arrastado. Cansada. Ao chegar à sua porta reparou imediatamente num embrulho de papel reciclado, enleado com fita vermelha. O bilhete estava entreaberto. Letícia hesitou, pegou-lhe com cuidado e leu de um fôlego só.

Seria possível? O pijaminha?
Pegou cuidadosamente no embrulho e levou-o para dentro. Sentou-se na poltrona e com desenlace nos dedos abriu-o. Ali estava ele suave, azul. Letícia suspirou e inalou um subtil aroma a lavanda. Está lavado, pensou. Mas já não tinha o cheiro dela, sem pressas decidiu voltar a lavá-lo - não fazia ideia de onde teria estado o pijaminha e não queria pensar nisso. As possibilidades que lhe asssomavam a mente provocavam-lhe arrepios.

domingo, maio 04, 2008

Desaparece - 42

Não percebo porque me irrita tanto este querer, este desejo que me amolga o andar e me faz suspirar apertada. Não entendo esta urgência dos teus braços que amordaço com os lábios quentes de outro alguém. Vou tomar banho, lavar o teu olhar de mim, arrancar as tuas palavras dos meus ouvidos. Escolher um canto para te esconder e nunca mais te encontrar. Porque preciso mesmo disso. Ai Miguel...desaparece. Deixa-me o vazio com que aprendi a sorrir e que agora tu não sabes como preencher. Habituei-me à tua pele, ao teu sabor e sem saber perdi-me no desejo que cega e faz tremer os joelhos.

As horas que partilhei contigo, num envolvimento que nunca soube como definir, passeiam-se na minha mente nos minutos ociosos...

A mesma dança repetida em mundos diferentes, em segundos diferentes, em escalas de intensidade diferentes. O sal da minha pele no sabor dos teus beijos, o calor do meu corpo entre as tuas mãos. A tua respiração ofegante e o meu coração acelerado. Uma dança descompassada perdida nos beijos acalorados. O pé a pisar o céu do abismo, o mundo a fugir-me das mãos, a tua respiração entrecortada no meu ouvido e o meu calor no teu corpo escaldante. A tua pele por baixo das minhas unhas e as tuas mãos a agarrar firmemente a minha cintura. Os gemidos que não consegui calar...e que te fizeram estremecer.

Agora apaga isto de mim para que te possa esquecer.

quinta-feira, abril 17, 2008

Regresso - 41


Ricardo estava calmo, tinha os movimentos calculados. Nada iria falhar, tinha que se desvincular daquele objecto e principalmente da sua dona. Abriu a gaveta mais próxima do chão e procurou entre os seus pijamas e os da sua mulher a peça de roupa que mais o tinha feito suspirar. Pegou nele, azul suave, inocente e ingénuo à primeira vista, mas tão sexy ao toque e tão indecentemente lascivo. Passou largos minutos a embrulhá-lo em papel reciclado, bege morto que em tudo contrastava com o poder do pijaminha. Escreveu algumas palavras numa letra desenhada com cuidado, não queria ser reconhecido.
Saiu de casa, consciente que Letícia estaria no trabalho àquela hora, tocou à campainha e pediu à Dona Isabel para poder deixar o embrulho à porta da inquilina. Ricardo subiu as escadas e pousou cautelosamente o embrulho na soleira da porta de madeira. O bilhete ligeiramente aberto:

"Devolvo-te a pele que te falta, perdoa-me o desejo incontrolável que me fez levá-la para longe de ti."